Como a poluição do ar afeta a saúde da população e quais cuidados podem reduzir os riscos
“O índio chorou, o branco chorou, Todo mundo está chorando
A Amazônia está queimando
Ai, ai, que dor
Ai, ai, que horror…” — trecho da toada Lamento de Raça, de Emerson Maia, interpretada por David Assayag.

Introdução
A fumaça que encobre o céu do Amazonas durante os períodos de queimadas representa muito mais do que um problema ambiental. Ela é um sinal de alerta para a saúde pública, pois compromete a qualidade do ar, prejudica a respiração e pode agravar doenças preexistentes. Em cidades como Manaus e em comunidades rurais e indígenas, os efeitos da poluição provocada pelo fogo podem atingir pessoas de diferentes idades e condições sociais.
A toada Lamento de Raça, composta por Emerson Maia, expressa a tristeza diante da destruição da floresta e da perda de animais, árvores e histórias que fazem parte da identidade amazônica. Essa mensagem também nos leva a refletir sobre as consequências das queimadas para a vida humana. Afinal, a floresta contribui para o equilíbrio ambiental, e sua destruição afeta diretamente as comunidades que dependem dela para viver.
Segundo o Ministério da Saúde, a fumaça dos incêndios florestais contém partículas e substâncias poluentes capazes de prejudicar tanto as populações próximas às áreas atingidas quanto aquelas que vivem a grandes distâncias dos focos de fogo. Por isso, compreender os riscos e adotar medidas preventivas é fundamental para proteger a saúde dos amazonenses.
1. O que existe na fumaça das queimadas?
Quando a vegetação é consumida pelo fogo, são liberados gases e partículas microscópicas que se espalham pela atmosfera. A composição da fumaça depende do material queimado e das condições da combustão, mas pode incluir monóxido de carbono, compostos orgânicos e material particulado.
Entre os principais poluentes está o material particulado fino, conhecido como PM2,5. Essas partículas possuem diâmetro igual ou inferior a 2,5 micrômetros e são tão pequenas que conseguem penetrar profundamente nos pulmões. Parte delas pode atravessar a barreira pulmonar e alcançar a corrente sanguínea, contribuindo para efeitos que vão além do sistema respiratório.
A fumaça também pode percorrer grandes distâncias, carregada pelos ventos. Dessa forma, mesmo pessoas que não vivem perto de uma área incendiada podem respirar ar contaminado. O problema se torna ainda mais preocupante durante períodos prolongados de estiagem, quando a baixa umidade, o calor e a concentração de poluentes podem aumentar o desconforto e os riscos à saúde.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a poluição causada pela fumaça dos incêndios como uma ameaça importante à saúde humana, especialmente por seus efeitos respiratórios e cardiovasculares.

2. Prejuízos para o sistema respiratório
O sistema respiratório é um dos primeiros a sofrer os efeitos da fumaça. Ao respirar o ar contaminado, a pessoa pode apresentar irritação no nariz e na garganta, tosse, espirros, rouquidão, ardência e sensação de falta de ar.
Em algumas situações, os sintomas são passageiros. Entretanto, a exposição intensa ou prolongada pode desencadear problemas mais graves, principalmente em indivíduos que já apresentam doenças respiratórias.
Pessoas com asma, bronquite e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), por exemplo, podem apresentar piora dos sintomas, aumento da tosse, chiado no peito e maior necessidade de medicamentos prescritos. A poluição também pode agravar quadros de inflamação das vias respiratórias e contribuir para o aumento da procura por serviços de saúde.
É importante destacar que não é necessário estar próximo às chamas para sofrer esses efeitos. A fumaça pode alcançar bairros inteiros, municípios vizinhos e comunidades distantes, dependendo das condições atmosféricas.
Um levantamento divulgado pela Fiocruz e pelo WWF-Brasil identificou uma associação entre a exposição à fumaça das queimadas e o aumento do risco de internações por doenças respiratórias em estados da Amazônia Legal, incluindo o Amazonas. Esses resultados reforçam a importância de considerar a poluição do ar como uma questão prioritária de saúde pública.
3. Consequências para o coração e a circulação sanguínea
Embora os problemas respiratórios sejam os mais conhecidos, os prejuízos da fumaça não se limitam aos pulmões. As partículas finas podem desencadear processos inflamatórios e contribuir para alterações no funcionamento do sistema cardiovascular.
Entre as possíveis consequências estão o agravamento de doenças cardíacas, alterações nos batimentos do coração e maior risco de complicações em pessoas vulneráveis. Em indivíduos que já apresentam hipertensão, insuficiência cardíaca ou outras doenças cardiovasculares, a exposição à poluição pode aumentar a preocupação com a saúde.
A relação entre poluição atmosférica e problemas circulatórios merece atenção especial entre os idosos, que podem apresentar maior vulnerabilidade aos efeitos dos poluentes.
Um estudo publicado nos Cadernos de Saúde Pública, ligado à Fiocruz, investigou a exposição ao material particulado proveniente da queima de biomassa na Amazônia brasileira e encontrou associação entre a poluição e indicadores de mortalidade por doenças circulatórias em idosos.
Esses dados mostram que respirar fumaça não deve ser considerado apenas um incômodo temporário. Em determinadas circunstâncias, a exposição pode representar um risco significativo para pessoas com condições clínicas preexistentes.
4. Crianças, idosos e gestantes precisam de atenção especial
Nem todas as pessoas reagem da mesma maneira à poluição do ar. Alguns grupos apresentam maior vulnerabilidade e precisam de cuidados redobrados durante os períodos de fumaça intensa.
Crianças: os pulmões e outros sistemas do organismo ainda estão em desenvolvimento. Além disso, elas podem respirar proporcionalmente mais ar em relação ao peso corporal e passar bastante tempo em atividades físicas. A exposição à fumaça pode provocar irritação, tosse e agravamento de doenças respiratórias.
Idosos: o envelhecimento pode reduzir a capacidade de resposta do organismo a agentes irritantes. Pessoas idosas com doenças pulmonares ou cardíacas precisam evitar a exposição desnecessária à fumaça e observar qualquer alteração no estado de saúde.
Gestantes: a poluição atmosférica durante a gravidez merece atenção porque estudos associam a exposição a determinados poluentes a resultados gestacionais desfavoráveis. Por isso, é recomendável reduzir a exposição e buscar orientação profissional quando surgirem sintomas.
Pessoas com doenças crônicas: indivíduos com asma, bronquite, DPOC, doenças cardíacas ou outras condições que aumentem sua vulnerabilidade devem seguir as orientações de seus profissionais de saúde e manter disponíveis os medicamentos prescritos.
Esses grupos não são os únicos afetados. Pessoas saudáveis também podem apresentar sintomas quando a concentração de fumaça é elevada.

5. Os efeitos sobre os olhos, a pele e o bem-estar
A fumaça pode provocar ardência nos olhos, lacrimejamento, vermelhidão e desconforto visual. O nariz e a garganta também podem ficar irritados, causando espirros, coceira e sensação de secura.
Além disso, a combinação entre fumaça, calor e baixa umidade pode favorecer a desidratação e intensificar o mal-estar. Dor de cabeça, cansaço, tontura e redução da disposição para as atividades diárias também podem ocorrer.
Outro aspecto importante é o impacto emocional. Conviver com o céu encoberto, o cheiro persistente de queimado e a preocupação com familiares, animais e comunidades ameaçadas pode provocar estresse, ansiedade e sensação de insegurança.
Para povos indígenas, ribeirinhos e moradores de áreas diretamente atingidas, as queimadas podem representar também a perda de territórios, alimentos, fontes de água e referências culturais. Esses prejuízos afetam a qualidade de vida e podem dificultar o acesso aos serviços de saúde.
Portanto, cuidar da população durante a estiagem exige uma abordagem que considere tanto os efeitos físicos da poluição quanto suas consequências sociais e emocionais.
6. Como proteger a saúde durante os períodos de fumaça?
Embora nem sempre seja possível eliminar a exposição à poluição, algumas medidas ajudam a reduzir os riscos.
Evite atividades físicas ao ar livre quando a qualidade do ar estiver ruim. Exercícios intensos aumentam a quantidade de ar respirado e podem elevar a exposição aos poluentes. Sempre que possível, prefira ambientes internos com ar mais limpo.
Mantenha os ambientes protegidos da fumaça. Feche portas e janelas quando houver muita fumaça no exterior, desde que isso não provoque superaquecimento. Se houver condições, utilize um purificador de ar adequado, preferencialmente com filtro HEPA, em um cômodo onde as pessoas possam permanecer.
Beba água regularmente. A hidratação ajuda a manter o organismo funcionando adequadamente, sobretudo em períodos de calor intenso. Entretanto, ela não neutraliza os efeitos das partículas inaladas.
Use proteção respiratória quando necessário. Se precisar sair durante episódios de poluição intensa, uma máscara PFF2 ou N95 bem ajustada ao rosto pode reduzir a inalação de partículas. Máscaras de tecido e máscaras cirúrgicas não oferecem a mesma proteção contra partículas finas. A máscara também não elimina todos os riscos associados aos gases presentes na fumaça.
Proteja os olhos e a pele. Evite o contato direto com cinzas e resíduos da queima. Ao retornar para casa, lave as mãos e o rosto e troque as roupas que tenham acumulado partículas.
Acompanhe os alertas oficiais. Consulte as informações divulgadas pelas autoridades de saúde e pelos órgãos responsáveis pelo monitoramento ambiental. Em períodos críticos, adapte a rotina às condições da qualidade do ar.
Não interrompa tratamentos médicos por conta própria. Pessoas com doenças crônicas devem seguir as prescrições e procurar orientação profissional caso os sintomas se agravem.
Essas recomendações estão alinhadas às orientações do Ministério da Saúde para reduzir a exposição à fumaça de queimadas e incêndios florestais.
7. Quando procurar atendimento médico?
É fundamental reconhecer os sinais de alerta. Tosse persistente, chiado no peito, irritação intensa, piora da asma e falta de ar exigem avaliação de acordo com a intensidade e a duração dos sintomas.
Procure atendimento com urgência se houver dificuldade importante para respirar, dor ou pressão no peito, confusão mental, desmaio ou coloração azulada nos lábios. Em situações graves, acione o serviço de emergência pelo número 192, do SAMU.
Crianças pequenas, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas devem receber atenção especial diante de qualquer piora significativa. Não espere que os sintomas se tornem graves para buscar ajuda.
Também é importante evitar a automedicação. Xaropes, antibióticos e outros medicamentos não devem ser utilizados sem indicação adequada, pois nem todos os sintomas causados pela fumaça têm a mesma origem ou exigem o mesmo tratamento.
8. A prevenção das queimadas também é uma medida de saúde
Proteger a população da fumaça é necessário, mas prevenir os incêndios é ainda mais importante. A redução das queimadas depende de fiscalização, educação ambiental, alternativas sustentáveis para o manejo da terra e ações coordenadas entre governos, comunidades e instituições.
O uso inadequado do fogo para limpar terrenos, eliminar resíduos ou preparar áreas agrícolas pode provocar incêndios descontrolados. Em períodos de seca intensa, as chamas podem se espalhar rapidamente, ameaçando florestas, residências, animais e comunidades inteiras.
É fundamental fortalecer campanhas de conscientização, ampliar o monitoramento dos focos de incêndio e garantir condições de trabalho e equipamentos adequados às equipes de combate ao fogo. Também é necessário valorizar os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas e das comunidades locais, que desempenham um papel importante na conservação da floresta.
A preservação ambiental deve ser entendida como parte da promoção da saúde. Um ambiente equilibrado contribui para a qualidade do ar, a proteção dos recursos naturais e a manutenção das condições necessárias à vida.
Conclusão
Os prejuízos causados pela fumaça das queimadas no Amazonas demonstram que a destruição da floresta não é um problema distante da realidade das pessoas. Ela interfere na respiração, pode agravar doenças cardiovasculares, prejudica grupos vulneráveis e compromete o bem-estar físico e emocional da população.
Diante desse cenário, a informação e a prevenção são ferramentas indispensáveis. Reduzir a exposição à fumaça, acompanhar os alertas oficiais, reconhecer os sinais de agravamento e procurar atendimento quando necessário são atitudes que ajudam a proteger a saúde individual e coletiva.
Entretanto, os cuidados pessoais precisam caminhar junto com políticas públicas eficazes de prevenção e combate aos incêndios. Não basta ensinar a população a conviver com a fumaça: é necessário trabalhar para reduzir sua origem e proteger os territórios ameaçados.
A mensagem de Lamento de Raça, de Emerson Maia, permanece atual ao lembrar a dor provocada pela destruição da Amazônia. Defender a floresta significa também defender as pessoas que nela vivem, as futuras gerações e o direito de todos a respirar um ar saudável.
Cuidar da Amazônia é cuidar da saúde. Preservar a floresta é proteger a vida.
Referências para o blog
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Incêndios florestais e saúde .
Organização Mundial da Saúde
- Ministério da Saúde. Queimadas: riscos à saúde e recomendações .
Ministério da Saúde
- Fiocruz. Queimadas na Amazônia aumentam problemas respiratórios .
https://www.icict.fiocruz.br/
- Nunes, K. V. R.; Ignotti, E.; Hacon, S. S. Mortalidade por doenças circulatórias em idosos e exposição ao PM2,5 gerado pela queima de biomassa na Amazônia brasileira . Cadernos de Saúde Pública.
Cadernos de Saúde Pública
- Fundação Amazônia Sustentável. Bases do Aprendizado para a Alfabetização — toada “Lamento de Raça”, de Emerson Maia